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Inovar por inovar acabou.
A era da inovação com ROI chegou

POR ITAMAR OLÍMPIO, CEO CO-VIVA

Por mais de uma década, a palavra “inovação” funcionou nas grandes empresas brasileiras como um cheque em branco. Justificou laboratórios paralelos, hackathons recorrentes, programas de aceleração com pouco vínculo com o negócio principal e métricas confortáveis (número de startups acompanhadas, número de provas de conceito iniciadas, número de pessoas envolvidas). 

O que raramente aparecia era a métrica que importa em qualquer outra área da companhia: receita gerada, custo reduzido, margem alterada. Esse modelo está acabando, e os dados dos últimos meses mostram com clareza para onde a inovação corporativa está indo.

O que mudou no mercado brasileiro

O Benchmark Report 2025: ROI na Inovação, realizado pela Match IT com apoio da ABES, Hotmilk, NR7 e Octua, ouviu executivos de diversos setores entre fevereiro e março do ano passado. Três achados desse estudo sintetizam o momento:

  • Metade das empresas que medem ROI de inovação já registra retorno superior a 30% sobre o investimento, em menos de dois anos.

     

  • 66% esperam recuperar o que investiram em até 24 meses. O ciclo do “inovação é coisa de longo prazo, não cobre agora” perdeu legitimidade interna.

     

  • 30% das empresas ainda não têm mecanismos estruturados para medir esse retorno, e a maturidade média das iniciativas de inovação no Brasil ficou em 2,7 numa escala de 1 a 5.

Esses dois últimos pontos são o nó da história. A pressão por ROI cresceu, mas boa parte das empresas continua sem o instrumento básico para responder à pergunta.

É exatamente nesse gap, entre cobrança e capacidade de medir, que orçamentos de inovação têm sido cortados nos últimos ciclos. Áreas de inovação estão sendo descontinuadas, fundos de Corporate Venture Capital perderam espaço, e há uma pressão clara por resultados imediatos.

O Innovative Workplaces 2025, da MIT Technology Review Brasil, que avaliou mais de 1.500 inscrições e premiou 20 companhias (entre elas Ambev, iFood, Petrobras, WEG, Leroy Merlin e Johnson & Johnson), aponta com clareza onde o resultado financeiro está aparecendo: inovação em processos segue como o principal vetor de resultados financeiros.

Por que essa virada está acontecendo agora?

Três fatores se somam.

  1. O orçamento ficou condicional

    Capital caro, juros altos por mais tempo do que se previa, e investidores cobrando margem fizeram com que cada centavo gasto em inovação precisasse responder à mesma pergunta que qualquer outro investimento responde: quanto isso gera ou economiza, e em que prazo. Quando 66% das empresas esperam payback em até dois anos, projetos de horizonte indefinido perdem espaço por definição.                              
  2. A maturidade dos próprios programas

    Boa parte das grandes empresas brasileiras estão na segunda ou terceira geração de áreas de inovação. Já gastaram com o laboratório-vitrine. Já viram o ciclo completo: programa anunciado com fanfarra, primeiros pilotos, foto com startup acelerada, troca de liderança, reorganização.
    O conselho aprendeu a perguntar onde está o retorno, e o CFO aprendeu a cortar verba que não sustenta a resposta.                            
  3. O redirecionamento da prioridade.  

    IA aplicada e automação dominaram a agenda. Esses são temas que praticamente exigem ROI mensurável desde o primeiro dia: ninguém implementa IA sem perguntar quanto ela economiza ou gera, ninguém automatiza um processo sem comparar custo antes e depois. A própria escolha do tema pressiona o método. 


As frentes onde a inovação está acontecendo

A virada não é sobre escolher entre formas de inovar, é sobre cobrar resultado em todas elas. Vale olhar onde a inovação corporativa brasileira está, de fato, gerando retorno hoje.

Inovação em processos
É a frente menos glamourosa e a que mais entrega resultado financeiro consistente, segundo o MIT Innovative Workplaces 2025.
Reorganizar uma jornada de atendimento, redesenhar um fluxo de aprovação, eliminar retrabalho em uma cadeia produtiva, repensar como uma área de operações se conecta com a de produto. 

Inovação interna e intraempreendedorismo
O Prêmio de Intraempreendedorismo 2025, realizado pela Pares e Liga de Intraempreendedorismo, recebeu inscrições de 91 empresas em sua terceira edição, com presença forte de indústria, finanças, saúde, energia, varejo e tecnologia.
Casos como o Cafeína Hub da Três Corações, o Conectando Ideias da Tigre, o programa BICUp da BIC Amazônia e o Acessibilidade em Foco da B3 mostram que o intraempreendedorismo deixou de ser um experimento isolado.

Entre as empresas inscritas, 46% já possuem áreas dedicadas à inovação e 42% operam com funis bem definidos e softwares especializados de gestão.

A diferença em relação ao modelo antigo é a infraestrutura de gestão: ideias entram, são avaliadas por critérios claros, viram piloto com baseline e métrica, e ou escalam ou são encerradas.

Transformação digital e IA aplicada ao core
A frente que mais consome orçamento de inovação hoje, e a que mais combina com a lógica de ROI.
Automação de processos com IA generativa, modelos preditivos aplicados à manutenção, sistemas de recomendação no varejo, copilots embutidos em fluxos administrativos.
Cada projeto começa com um baseline operacional e termina com uma comparação numérica. 

Inovação em modelo de negócio
Menos comum, mais arriscada, mas é onde estão os ganhos não-incrementais.
Novas unidades, novos canais, repricing, transformação de produto em serviço (ou de serviço em produto), entrada em mercados adjacentes.
O Prêmio Valor Inovação Brasil 2025, da Strategy& com o Valor Econômico, em sua 11ª edição, destaca esse tipo de movimento entre as líderes setoriais como Natura, Petrobras, Vivo e Grupo Boticário.

Inovação aberta
Continua sendo uma via legítima, especialmente para validar tecnologias prontas via prova de conceito antes de adquirir uma solução ou fechar parceria comercial.
Mas, como apontou o estudo do Torq/Sling Hub com 87 grandes empresas, 82% das que investem em inovação aberta hoje avaliam suas iniciativas por impacto financeiro, e 76% só vão manter ou ampliar o orçamento se os projetos estiverem diretamente conectados a indicadores de eficiência, redução de custo ou geração de receita. 

O que isso muda na prática

A inovação corporativa que sobrevive a essa virada é diferente em cinco aspectos.

  1. Está dentro, não ao lado.

    O modelo de “lab” como unidade descolada, com cultura própria e métrica própria, está sendo desmontado nas empresas mais maduras.

    Inovação passa a ser função integrada às áreas de negócio, com responsáveis das próprias áreas envolvidos no resultado. Quando a meta de inovação coincide com a meta do diretor da área operacional, o projeto deixa de ser opcional.
  2. Trabalha com problemas, não com tecnologias.

    A pergunta deixou de ser “o que essa tecnologia nova permite?” e passou a ser “qual processo está nos custando demais e pode ser resolvido com tecnologia disponível?”.

    Isso muda o ponto de partida da conversa: começa pela operação, não pelo fornecedor.
  3. Tem métrica desde o primeiro dia.

    Os 82% das empresas que medem inovação por impacto financeiro não conseguiriam fazer isso sem definir a métrica antes do projeto começar. Baseline, indicador-alvo e ponto de medição precisam estar acordados antes da prova de conceito , não combinados depois para justificar resultado.
  4. Aceita matar projeto.

    Inovação madura desativa iniciativa que não rende.
    O modelo antigo tendia a manter projetos zumbis vivos para preservar a narrativa.
    O modelo atual aceita que parar é parte do método, não fracasso.
    Empresa com programa de inovação que nunca encerrou nada é, quase por definição, empresa que ainda está na fase anterior.
  5. Trata cultura como infraestrutura

    Esse ponto é onde a maioria das empresas tropeça, e onde a régua precisa subir.
    Mas o gap entre “ambiente favorável” e “fluxo estruturado de ideia para resultado” continua sendo o que separa quem entrega ROI de quem só fala em inovação.

    Cultura de inovação é como os times são treinados para identificar problemas, formular hipóteses, testar e iterar de forma disciplinada. Sem isso, qualquer uma das frentes anteriores entrega menos do que poderia. 

O risco da empresa que não fez essa transição

Existe ainda um número grande de organizações brasileiras que mantém o modelo antigo.  Área de inovação descolada, programa de aceleração ou intraempreendedorismo genérico sem governança, KPI de quantidade em vez de impacto, apresentação anual com casos concluídos como evidência de progresso.

A consequência prática é dupla. Por dentro, o orçamento de inovação tende a ser cortado nos próximos ciclos, porque não sustenta business case quando comparado com investimentos com retorno mais previsível.

É o que o estudo da Inventta já vem registrando: áreas sendo descontinuadas, não por desinteresse pela agenda, mas por incapacidade de demonstrar resultado.

Por fora, a empresa perde tempo para concorrentes que estruturaram inovação como parte da operação e estão capturando ganho de eficiência consistentemente, projeto por projeto, processo por processo.

A boa notícia é que a transição não é cara nem complexa em conceito. Exige decisão sobre três pontos:

  • Onde inovação se reporta dentro da organização (cada vez mais junto das áreas de negócio, não da diretoria de novos projetos)

  • Como ela é medida (impacto financeiro, com baseline definido antes do projeto começar)

  • Como o time é preparado para operar nesse novo modelo (capacitação real em formulação de problema, validação de hipótese e leitura de dado, não treinamento de palestra inspiracional)

A virada que Match IT,  MIT Technology Review, e Strategy&/Valor descrevem, cada um pelo seu ângulo, é a forma como a inovação corporativa vai operar nos próximos anos no Brasil.

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